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29/01/2010 - 09h27 Desemprego vai aumentar e pode segurar alta de juros, avalia economista
Não serão eventuais pressões políticas os maiores desafios para o Banco Central (BC) elevar as taxas de juros básicas neste ano. Devido à melhora da atividade - que vê o Produto Interno Bruto (PIB) passar de quase zero em 2009 para taxas próximas a 6% neste ano - mais pessoas procurarão emprego. Num primeiro momento, esse movimento vai gerar aumento da taxa de desemprego. A missão do BC, então, será elevar os juros num período de aumento da desocupação. Essa é a avaliação de Alexandre Lintz, estrategista-chefe do BNP Paribas, para quem a taxa de desemprego pode alcançar 9% entre o segundo e o terceiro trimestres do ano, antes de iniciar trajetória de queda.
Segundo Lintz, a População Economicamente Ativa (PEA) tem caráter pró-cíclico, isto é, tende a se ampliar quando a atividade se acelera. O economista calcula que a alta na taxa de desemprego começa nos primeiros meses deste ano, uma vez que a maior parte do seguro-desemprego contratado por aqueles que perderam vagas no ano passado vence no período. No ano passado, os benefícios do seguro-desemprego tiveram prazo ampliado de cinco para sete meses.
"O problema do mundo não é inflação, mas desemprego", disse Lintz, presente em seminário realizado ontem pela Câmara de Comércio França-Brasil, em São Paulo. Para o economista, as turbulências mundiais terão reverberação "dramática" em países desenvolvidos, como Grécia e Espanha, onde a taxa de desemprego ultrapassa 10% - valor próximo ao verificado nos Estados Unidos. "Dificilmente teremos pressões inflacionárias nos EUA neste ano. No Brasil, crescendo mais rapidamente, a alta de preços deve vir apenas em 2011, movimento que será antecipado pelo BC no fim deste ano", avalia.
"Os analistas, até pouco tempo, acreditavam que 2010 seria um ano tranquilo. Mas vemos forte deterioração do déficit em conta corrente, e o câmbio, diferentemente do que ocorreu no ano passado, deve oscilar ao longo do ano", afirma Eduardo Mafra, tesoureiro do Société Générale. Para Mafra, a expectativa de um déficit nas transações correntes da ordem de US$ 60 bilhões, que se soma aos cerca de US$ 10 bilhões referentes à amortizações de dívida externa, "pode causar estresse no mercado se a liquidez internacional sofrer retração". O economista avalia que o financiamento do déficit pode ser feito "sem dificuldades", mas, se houver problemas mais sérios nos países desenvolvidos, a repercussão mais imediata ocorrerá na taxa de câmbio.
Os economistas convergem sobre a percepção de que a inflação corrente não constitui "pressão" sobre a meta de 4,5% perseguida pelo Banco Central. "As altas nos índices de inflação neste começo de ano são impulsionadas por fatores sazonais absolutamente normais. As pressões nos preços e no fechamento do hiato do produto só virão no segundo semestre", avalia Mafra, para quem o BC deve elevar a Selic a partir do último trimestre.
Para Vladimir do Vale, estrategista-chefe do Crédit Agricole, "o mercado exagera quando precifica aumento de quatro pontos percentuais na Selic, começando em abril". Segundo o economista, o BC terá de elevar as taxas - para ele, a operação começará em junho - como forma de "trazer o crescimento do PIB para taxas próximas ao potencial, de 4,5%". Para Vale, o BC deve antecipar em seis meses o fechamento do hiato entre o PIB potencial e o PIB corrente, devido à defasagem da política monetária.
João Villaverde (Jornal Valor Economico)
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